sábado, 11 de agosto de 2007

NÃO EXISTEM HOMOSSEXUAIS [João Pereira Coutinho, da Folha de S. Paulo]

Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada.

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.

terça-feira, 17 de julho de 2007

BRILHO

meu olhar ao te encontrar,
tentou te dar motivo prá me olhar,
mas não encontrou.
e então, brilhou,
na esperança de que isso fosse bastar.
que bom que bastou...
"... tive vontade de sentar na calçada da rua Augusta e chorar,
mas preferi entrar numa livraria,
comprar um caderno lindo
e anotar sonhos"

[Caio Fernando Abreu]

quarta-feira, 11 de julho de 2007

ANJO ARDENTE

meus pensamentos são teus.
todas as coisas me lembram você.
cada cheiro, cada imagem,
cada som, cada gosto,
me remetem a lembranças tuas.
teu sorriso me encanta,
tuas palavras me hipnotizam,
teus toques me inebriam de tal forma,
que não consigo ficar um dia sem sentir o calor da tua pele
ou tua respiração ofegante ao meu lado,
sussurando com a voz rouca em meu ouvido: "amo você!".
quando me amas, encontro o paraíso na terra e adormeço feliz,
com a lembrança de que um anjo me envolveu com suas asas sedutoras,
fazendo-me arder mais que as chamas do inferno.
é a paixão que chegou prá valer!

quarta-feira, 27 de junho de 2007

RUAS DE OUTONO [Ana Carolina]

Nas ruas de outono
Os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia vai passar
As folhas pelo chão
Que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar

Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto

Daria pra escrever um livro
Se eu fosse contar
Tudo que passei antes de te encontrar
Pego sua mão e peço pra me escutar
Seu olhar me diz que você quer me acompanhar

Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto

Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto...

terça-feira, 19 de junho de 2007

PERFEIÇÃO

quando a intenção
encontra um alguém
prá se intencionar.

quando a emoção
encontra a maneira
prá emocionar.

quando o coração
encontra o lugar
prá se acomodar.

perfeição:
sorrir por encontrar
um alguém, a maneira e o lugar.

domingo, 17 de junho de 2007

ENTRELINHAS

entre pernas,
entre pêlos,
entre coxas,
entre corpos,
entre cordas...
me amarrei
em você.

sábado, 16 de junho de 2007

C'EST LA VIE [Ato IX]

[Resumo da aproximação - por email.]

ELE: "Desculpa a invasão, mas não pude evitar de fuçar no seu orkut! hehe... A verdade é que te achei interessante demais e gostaria mesmo muito de conversar mais com você..."
EU: "Obrigado pelo email carinhoso! Se quiser marcar um dia para conversarmos é só me dizer quando pode... Daí a gente bate os horários e combina, beleza?"
ELE: "Fim de semana eu tenho todinho livre. Quando é melhor pra você? Você curte beber? Afim de tomar uma breja? Você é lindo demais!"
EU: "Eu adoro cerveja! Mas com essa friaca, acho que um vinho seria uma pedida mais interessante, não? Quanto ao lindo demais... Obrigado! Mas depois a gente vai junto ao seu oculista prá ver se os seus óculos precisam ser trocados, beleza? rs..."
ELE: "Quanto à bebida, meu corpo é muito permeável ao álcool, assim, todas as suas sugestões são ótimas, principalmente a do vinho, que além de tudo é delicioso e romântico, hehe! Quanto aos óculos, na verdade eu uso lente, mas não me enganei quanto a você. Aliás, não vejo a hora de ver bem de perto... Tô adorando esses nossos contatos, dá até aquele frio na barriga, me sinto um adolescente! hehe..."

[Alguns encontros depois - diálogo ao vivo.]

ELE: "Você esqueceu sua cueca aqui da última vez."
EU: "Essa cueca não é minha..."

Que lição a vida tá tentando me ensinar?
Eu não tô conseguindo captar!...